Category: Literatura

Literatura

Prémio Nobel da Literatura 1998

Corria o ano da graça de 1998 quando um escritor português foi finalmente distinguido com o prémio máximo a nível internacional. Pela primeira vez a Língua Portuguesa abraçava esta distinção, neste mesmo dia 8 de outubro.

 

Sempre crítico nas suas apreciações tem imensas frases memoráveis espalhadas ao longo das suas obras. Nem sempre é fácil lê-las, dão luta, muita luta… mas vencê-las é uma vitória a dobrar.

Em 2008 via assim o seu Nobel:

«Ser Nobel não é a mesma coisa que ser Miss Universo – a Miss Universo assina um contrato e tem de fazer uma quantidade de coisas. Com o Nobel, não há contrato. Dão-to ou não te dão.»

Quem pretender pode aceder aqui ao discurso proferido pelo próprio na Academia Sueca.

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Poema de Mário Cesariny dito pelo próprio

O que fica de  quem passa…

 

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar.

Mário Cesariny, “You Are Welcome to Elsinore” in «Pena Capital», 1957