Algumas Palavras Acerca da Dislexia

No meu tempo não havia cá alunos com doenças com nomes estranhos. Um puto andava ali a estudar e pronto. Se passasse de ano, melhor, se não passasse era porque era burro, levava duas valentes lostras e repetia o ano. Sem traumas nem considerações psicoeducacionais e assim se fez um país.

Apesar de inúmeros estudos acerca deste tema, não há soluções à vista nem sequer entendimento quanto às origens da dislexia. Há apenas conceitos e teorias, uns mais consistentes ou vagos do que outros, mas todos com a mira apontada ao problema. No meio de tudo isto estão as crianças que são quem mais sofre. Os pais desesperados porque têm filhos com defeito de fabrico e os professores sem formação adequada que muitas vezes desvalorizam o óbvio.

Ao que parece, os disléxicos têm menos atividade na área que faz a ligação do córtex visual às áreas da linguagem. Dito assim parece estranho, mas vamos lá olhar para a imagem para perceber o processo de leitura:

 

cérebro dislexia

 

Quando lemos, uma área do nosso cérebro, a verde, é acionada para identificar as letras. Uma outra parte, aqui a cor de laranja, permite entender o significado da palavra e por fim uma terceira área, a vermelho, processa toda esta informação.

 

Cérebro com e sem dislexia

 

Quando um disléxico faz o mesmo exercício de leitura, a atividade no cérebro numa determinada área é menor e para compensar esta falha o seu cérebro é forçado a trabalhar mais o último processo, a vermelho, chegando mesmo a recorrer ao hemisfério direito para pedir ajuda. O resultado já se sabe: estas pessoas cansam-se mais depressa do que as outras, porque precisam de maior concentração. Pode acontecer lerem um texto corretamente sem perceberem o seu sentido. Tarefas que envolvam interpretações de símbolos, números ou ler pautas de música, por exemplo, podem, com efeito, criar muitas dificuldades.

Quando se trata de crianças, sabemos que entre elas são especialmente cruéis, por vezes, apontando não raras vezes um disléxico como preguiçoso ou burro e os coitados de tanto ouvirem acabam por interiorizar isso. Por vezes até os adultos têm esta postura. Nada mais errado.

A dislexia não é uma doença, é antes uma característica genética desenvolvida na gestação entre as semanas 16 e 24. Outro dado curioso é que afeta mais meninos do que meninas e é um factor hereditário. Pode e deve ser tratada, para que a pessoa desde criança melhore a sua aprendizagem e não tenha de sofrer com isto. É muito comum estas pessoas sofrerem de baixa autoestima e terem problemas de socialização. A sua timidez é facilmente justificável e pode degenerar em quadros depressivos. Como não tem de ser assim, é desejável um acompanhamento especializado e muita paciência por parte de todos.

Os disléxicos não são pessoas condenadas ao fracasso, antes pelo contrário. Apresentam, por norma, um lado artístico ou científico muito desenvolvido. Há números exemplos de disléxicos que não deixaram de ser geniais, mas deixo aqui apenas alguns: Leonardo da Vinci, Michelangelo, Vincent van Gogh, Pablo Picasso, Walt Disney, Whoopi Goldberg, Robin Williams, Tom Cruise, Albert Einstein, Thomas Edison, entre muitos outros.

 

dislexia

 

Há até um autor com uma teoria muito curiosa em que vê a dislexia como um dom, já que as pessoas com este distúrbio possuem funções mentais muito especiais, tais como:

  • podem usar a capacidade cerebral para alterar e criar percepções;
  • são muito conscientes do ambiente que os rodeia;
  • são mais curiosos do que a média;
  • pensam sobretudo em imagens, mais do que em palavras;
  • pensam e percecionam em múltiplas dimensões (com todos os sentidos);
  • podem experienciar o pensamento com realidade;
  • têm imagens vividas.

Como a dislexia está ligada ao pensamento não verbal tende a surge de forma tão rápida que muitas vezes foge ao consciente, daí que muitas vezes estas pessoas saibam uma resposta sem saber explica-la. É igualmente um pensamento multidimensional, experienciado como realidade já que usa todos os sentidos. Este facto, aliado à curiosidade natural destas pessoas, origina uma criatividade muito grande, pois estas pessoas conseguem visualizar e conceber de forma tridimensional coisas que na verdade não existem.

Se as suas funções mentais não forem destruídas durante a aprendizagem, as pessoas com dislexia terão seguramente uma inteligência acima da média e mostrarão capacidades criativas fora do comum.

 

Como proceder face a uma pessoa disléxica

Há que ter especiais cuidados perante uma pessoa com dislexia, sem que isso retire naturalidade à convivência. Assim, devemos sempre que possível:

  • elogiar
  • encorajar
  • encontrar pontos positivos
  • ensinar a dividir palavras longas em sílabas
  • ajudar a pronunciar as palavras corretamente

Como não proceder face a uma pessoa disléxica

Há coisas que podem ferir profundamente estas pessoas, sobretudo se estivermos a lidar com crianças. A nossa frustração passa muitas vezes para elas e por isso temos a tendência de fazer algumas coisas que não são de todo aconselháveis:

  • Ridicularizar ou usar sarcasmo
  • Fazer rescrever um determinado trabalho
  • Fazer comparações com pessoas sem este distúrbio

Já se sabe que se pedirmos a uma pessoa com dislexia que leia em público o mais provável é que se mostre desagradada. Se for criança devemos evitar forçá-la a fazê-lo, a sua recusa é apenas uma defesa. Devemos é insistir no facto de ser necessário trabalhar determinados aspetos mais do que os outros, em vez de virar costas como se nada fosse.

 

dislexia

 

Claro está que a pessoa disléxica tem de ser a primeira a ajudar-se, a conversa do coitadinho só atrapalha. Tem de se esforçar, mesmo que isso a desagrade, e tem de perceber que há formas de atenuar o distúrbio, basta para isso que use alguns truques criados por si ou fornecidos por terceiros.

É como uma corrida: podemos não ser o mais rápido, mas com muito esforço e empenho havemos de atravessar a meta.

 

Top de outras doenças do cérebro

A dislexia é uma entre muitas outras disfunções que afetam o cérebro. Neste sentido, aqui fica um Top das doenças ligadas ao cérebro:

 

Síndrome de Fregoli

Esta disfunção inclui transtornos delirantes e esquizofrenias e caracteriza-se por o portador desta síndrome ter a nítida sensação de que uma pessoa, geralmente familiar, o persegue. Assim, modifica repetidamente a sua aparência para justificar essas alterações. Este paciente pode imaginar que um médico, um porteiro ou um taxista são a mesma pessoa, usando apenas um disfarce para continuar a persegui-lo.

 

Síndrome da Má Identificação Delirante

Esta patologia impede os seus portadores de reconhecerem a própria imagem num espelho, tendo a ilusão de que o rosto que visualizam é o de outra pessoa. Este distúrbio foi retratado na série “CSI: Nova York”, no episódio “Heart of Glass” (Temporada 3; episódio 16).

 

Agnosia Visual

Este distúrbio é a perda da capacidade de reconhecer pessoas, objetos sons e formas. Os portadores desta patologia podem olhar para um objeto comum, como uma caneta, sem conseguir identificá-lo. É um pouco a situação descrita no filme “A Minha Namorada Tem Amnésia”.

 

Prosopagnosia

Esta disfunção caracteriza-se por o seu portador não ser capaz de distinguir as feições de uma pessoa, ou seja, os olhos, nariz e boca, vendo apenas uma mancha única.

 

Somatoparafrenia

Esta patologia faz com que o paciente acredite verdadeiramente que uma das partes do seu corpo não faz parte do seu organismo. Assim, é capaz de se lesionar e até mesmo amputar um braço apenas por achar que pertence a outra pessoa. Apesar da disfunção, o paciente consegue mover os membros normalmente, apenas não os reconhece como sendo parte de si.

 

Alzeimer

Esta doença é degenerativa e caracteriza-se pela perda súbita das faculdades mentais. Nas suas fases inicial e intermédia a perda de memória provoca muito desconforto, mas numa fase adiantada não há qualquer incómodo, uma vez que o doente perde a faculdade de se autocriticar.

 

Epilepsia

Os neurónios trabalham em conjunto e comunicam através de sinais eléctricos, mas ocasionalmente pode dar-se um curto-circuito no cérebro e uma parte ou todas as células descarregam-se anormalmente,   resultando daí um ataque epiléptico.

 

Narcolepsia

Este distúrbio caracteriza-se por episódios irresistíveis de sono e em geral pelo distúrbio do sono. O principal sintoma é uma espécie de preguiça e a sonolência diurna excessiva, o que pode colocar o paciente em perigo durante a realização de tarefas comuns como conduzir, operar certos tipos de máquinas ou tipo de acções que exijam concentração.

 

ilusão

 

O cérebro humano é de facto o principal órgão do nosso corpo e é capaz de coisas positivamente extraordinárias. Por ser tão complexo, apresenta alguns mistérios igualmente excecionais e… complexos.

Haveria muitas mais doenças associadas ao cérebro que mereciam destaque, já se sabe, mas creio que assim fica claro que, vistas bem as coisas, a dislexia não é assim tão problemática. O segredo será mesmo aprender a viver com ela, tal como uma pessoa baixa ou alta tem de aprender a viver com a sua estatura. Em vez de se central no problema que isso possa ser, o melhor será mesmo tentar tirar partido das circunstâncias, pese embora as dificuldades.

N.B.: Tal como já aconteceu antes, o tema aqui hoje abordado ficou a dever-se ao pedido de um dos leitores. Sempre que queiram ver aqui algum assunto retratado por favor disponham. Este espaço é vosso!

Hugo Lameiras

Hugo Lameiras

Hugo Lameiras é um eterno insatisfeito nascido em Lisboa, mora nos seus arrabaldes, mas anda sempre com a cabeça em diferentes sítios ao mesmo tempo. Odeia touradas, mas adora ferrar umas farpas. A pretexto de estudar Letras, travou conhecimento com uma série de áreas. Trabalha em televisão e tem imensos sonhos para concretizar.

More Posts

2 Comments

  • Hugo Lameiras Hugo Lameiras says:

    Uma vez mais, não posso deixar de agradecer.

  • RR says:

    :D :D “…levava duas valentes lostras e repetia o ano” Céus!!! :D :D Muito bom! :)

    Quem não sabia o que era a dislexia, passou a saber… o artigo explica o que é de uma forma fácil de entender.

    Eu conheço algumas (5 mais exactamente) crianças com dislexia (com diferentes graus de dislexia – que há casos mais graves que outros) e sei que não é fácil nem para elas, nem para os pais. Mas nenhuma delas tem, felizmente, problemas de socialização (também, todas elas têm tido acompanhamento desde que se descobriu – o que infelizmente nem todas as crianças podem ter porque não é fácil nem barato – e também nenhuma tem direito à “conversa do coitadinho”). Já a autoestima, como se costuma dizer, “tem dias”…

    De facto é uma questão de perspectiva, há distúrbios bem piores…, mas todos nós sabemos que quando temos um problema nem sempre conseguimos pensar que “há problemas piores” :) e, para os pais destas crianças, a prioridade é os filhos deles ;) (embora todos eles tenham noção que há coisas bem piores e muitas vezes, quando confrontados com outras crianças mais “complicadas”, comentem que afinal “ao pé disto, o que o meu filho tem não é nada”)

    Parabéns! O artigo está muito bom!

    O facto de nos habituarem mal com os vossos artigos é que depois a “fasquia fica alta” :) (não, estou a brincar… não fica nada)
    A propósito, posso perguntar o que aconteceu à JS e ao Marco? Já há muito que não vejo nada deles e no caso da JS faz falta porque deixou de haver uma “visão feminina” – desculpa Hugo, isto não tem nada a ver com o teu artigo, mas foi no seguimento do que estava a escrever e já há algum tempo que ando para perguntar.

    ““…levava duas valentes lostras…” – gostei mesmo desta!!! :D :D

Leave a Reply